segunda-feira, julho 11, 2005

Hã?

Eram 4h45 da manhã e ela ouviu um barulho. Vinha da cozinha. Não, na verdade vinha das escadas do prédio. Não, não. Na verdade, ela não sabia de onde vinha. Depois de muito procurar o motivo daquele som irritante, que parecia sair de uma corneta desafinada e velha, ela se deu conta de que o barulho vinha de sua própria mente.

Ócio? Existe quase nada dessas quatro letrinhas em sua vida. Quem dera... No dia anterior, havia lido na coluna de uma prestigiada revista, escrita por uma prestiagiada atriz, a seguinte frase: "Nem nas fantasias mais tortuosas, Deus imaginou filhos tão destrambelhados". É, amigos, estamos destrambelhados. Mesmo. É só ler os jornais, assistir à televisão aberta, ir na esquina comprar um pão, sem a certeza de voltar, que nos damos conta do caos completo a que estamos submetidos.

Semana passada, o espisódio sangrento e vergonhoso do ônibus 174 se repetiu, só que desta vez não demorou tanto. Foi rápido. A vida de um garoto de 20 anos foi levada numa fração de segundos por um homem para quem a vida não tem o menor valor, por alguém que não tem absolutamente nada a perder. E no dia do aniversário da vítima. Terá sido um presente de Deus? Balela...

Alô, governantes! Alôou! Mais insanos do que esse assassino são as cobras "mal" criadas da política, que colaboram para a proliferação do crime, da miséria, da falta de cultura, de educação, fazendo do nosso país uma decepção a cada jornal lido. É molhar o dedo para facilitar a passagem da próxima página do periódico, que já dá pra sentir o gosto amargo que brota de cada letra, palavra, frase.

O tempo passa e ela se dá conta de que não é só aqui. Outro dia mesmo, ao ligar a tv e ver as notícias sobre os atentados de Londres, ficou com todos os cabelos arrepiados (todos!!! porque é de arrepiar até os pentelhos mesmo) e ligou imediatamente para seu pai, para saber se ele já havia tido notícias de seu primo querido, residente na cidade. Ele estava bem.

Ela se distrai, larga as folhas azedas que mancham suas delicadas mãos de preto, e lembra da imagem tranqüila de seu querido amigo, Fervil, um dia assassinado durante um assalto, no Rio de Janeiro, uma das Mecas do consumo de drogas. Pensa na conversa que teve com um novo amigo no fim de semana sobre a ligação do tráfico com o consumo. Será que cada um plantar na sua varanda é a solução? Ela não tem certeza. Legalização já? Ela não tem a resposta, mas quer mudar o mundo, fazer o bem. Seu novo amigo, que mais parece uma fortaleza, um muro de concreto também não tem as respostas. Eles vão embora, saem pelas ruas da Lapa, na madrugada mais fria dos últimos tempos e ela sente-se protegida ao lado daquele gigante. Um sentimento falso. Nem os gigantes sobrevivem à selva urbana hoje em dia...

Está tarde, a mente inquieta embaralha. Ela acha melhor voltar pra cama. O barulho vem de dentro, ela sabe. E não pode fazer nada. Só lhe resta dormir. E acordar no dia seguinte, levar a vida de acordo com seus princípios e valores - muito bem ensinados por seus pais - e contar, mais do que nunca, com a fé e a sorte que nunca lhe faltaram...

4 comentários:

andre disse...

é realmente impressionante como a coisa passou mais despercebida dessa vez... sem as cores e o espetáculo proporcionado pelo "ao vivo" do plim-plim.
quantas vezes as câmeras da Globo serão responsáveis por episódios como esse não serem recebidos com a devida proporção por parte das autoridades e de todos nós também?

lindo texto como sempre, bel
bjs

andre disse...

referi-me ao episódio do onibus...

Marco Santos disse...

Olá, minha doce e Bella Isa
Na semana passada, eu tinha descoberto uma coisa interessante: estamos no Google! Se digitasse no banner do Google "mente inquieta", apontaria para o seu blog. Se digitar "Antigas Ternuras", o procurador indica o meu.
Reparou que a frase relativa ao seu está no passado? Pois é. Hoje, digitei "mente inquieta" e surgiu no Google 6440 sites com esta frase!
Caraco! Da semana passada para cá? É muita inquietação...
Um beijo e fique com Deus. Obrigado pela visita que você me fez no outro dia. Volte sempre. Afinal, você é a madrinha do AT.
Marco

Cristina Clarke disse...

Olá Bel querida!
Pensei a mesma coisa qdo vi aquele episódio do ônibus... as cenas se repetindo... E a vontade de fazer algo, de lutar contra essas injustiças ainda me sufocam. E a saudade do Fervil, então? Ai, ai... Sinto falta das nossas reuniões, de poder compartilhar esses sentimentos que sei que você entende bem.
Saudades, Cris